Os textos desta secção refletem as opiniões e análises dos/as autores/as


Media e Opinião Pública

Quando se trata de diversidade – seja ela de etnias, sotaques ou nacionalidades –, a comunicação social portuguesa ainda deixa muito a desejar. A predominância nas redações, sobretudo nos espaços de chefia, de visibilidade pública e de comentário e análise, segue sendo de homens brancos. Uma situação que, infelizmente, não é muito diferente em outros países da Europa ou mesmo no Brasil. Dados do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) indicam que nunca houve tantos estrangeiros a viver em Portugal. Somos mais de 500 mil imigrantes regularizados, o que mostra como o país vem se consolidando como um polo de atração para cidadãos de diferentes origens.  

Incluir e dar mais visibilidade a essas pessoas não deve ser encarado como um favor ou ato de caridade, mas sim como um movimento para melhor contemplar a diversidade existente no país.  

Ao dar mais espaço para as vozes trazidas pela crescente comunidade internacional, a comunicação social portuguesa só teria a ganhar. Além de incluir a perspetiva desta população que tanto contribui para a formação do Portugal atual, os media teriam a oportunidade de desconstruir estereótipos e de ajudar a incluir os imigrantes no tecido social nacional.  

 Que empresa terá a coragem de dar este primeiro passo?  

Giuliana Miranda, jornalista e vice-presidente da AIEP (Associação de Imprensa Estrangeira em Portugal)


Como combater o racismo nos media e consciencializar a opinião pública portuguesa?

Arrisco-me a dizer que seria por ter mais representatividade nos​ canais generalistas (SIC, TVI, RTP). Já ajudava um pouco! Mas, infelizmente, como todos sabemos e como é visível para quem   realmente quer  “ver”, a  falta de        representatividade de africanos/afro-descendentes (pessoas negras, independemente da sua etnia), brasileiros e ciganos, entre outros, é bastante notória nos três principais canais nacionais. Se olharmos para o panorama nacional, os meios de comunicação vestem um certo preconceito e discriminação para tudo que seja diferente ou fora de padrão. Os sotaques não são bem aceites, a fisionomia é quase toda padronizada, os corpos gordos não estão representados. Quando começamos a alargar a lista e a pensar em pessoas pretas, de cabelo crespo, ciganas, brasileiros, ou seja, diferentes, não as conseguimos encontrar nas televisões nacionais, salvo raras exceções.

Numa sociedade multicultural, que tem os media concentrados em Lisboa, a capital do país e uma das cidades mais multiculturais da Europa, não deveria ser normal haver maior representatividade nos canais que nos representam? Numa​ era em que anúncios, debates e até alguns planos do governo falam de inclusão, diversidade, representatividade e multiculturalidade, entre outros termos pomposos, eu, uma mulher preta, gorda, com sotaque, completamente fora do padrão não consigo sentir-me representada nos meios de comunicação da sociedade em que vivo?

Sinto que, às vezes, as pessoas não são cegas no que toca às questões raciais. Fazem é questão de pôr uma venda nos olhos para não verem a opressão sob a qual vivemos, e com a qual compactuam. Trabalho num canal televisivo que tem 80% a 90% do seu público formado por africanos/afro descendentes ou emigrantes, cujo conteúdo é africano, e onde o diferente e o fora de comum é o procurado, mas, se olharmos para a equipa, podemos ver de forma explícita o tipo de racismo com o qual convivemos, o racismo estrutural. 

Sabem o que é? Racismo estrutural é o termo usado para reforçar o facto de que há sociedades estruturadas com base na discriminação que privilegia algumas raças em detrimento das outras. Outra coisa que acho curiosa: como é possível pessoas que não entendem nada de uma cultura, que não respeitam e da qual não gostam, produzirem um programa com o mesmo amor e dedicação que teriam as pessoas desta cultura? Será que não existe pessoas capazes nessas áreas para fazerem o trabalho?

Mais do que dar espaço para a comunidade migrante mostrar a sua cultura, deveria usar-se o lugar de fala para dar espaço e criação, e assim gerar oportunidades de emprego. Existem muitas pessoas talentosas e com muito para oferecer dentro da comunidade. Existe diversidade que merce ser exposta, para aprendermos sobre a tolerância, empatia, as raízes e a cultura de outros povos. Para aprendermos sobre o respeito. Assim, chegamos à tolerância.

Chegou o momento de narrarmos a nossa história. Para isso, precisamos de mais oportunidades, de mais abertura, de um espaço para conseguirmos seguir o nosso caminho sem medo e nem receio.

Neusa Sousa. Produtora de Conteúdos do Bem-Vindos. CEO do Chá de Beleza Afro. Ativista por Questões de Género. Promotora Cultural.

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